- Mais uma xícara de café -
Parte IV - Final
Domingo. Eu podia ouvir as crianças brincando, alheias a tudo. Por alguns instantes, desejei um pouco da "alienação casual" das crianças. É tudo tão fácil quando se é criança. As coisas são tão mais simples. E agora, eu estava ali, e, já não era mais uma criança. Eu tinha todos os motivos para querer ser uma naquele momento, e, apenas um motivo para querer ser exatamente o que sou agora. O mesmo motivo que me conduziu por ruas pouco conhecidas por mim ate aquela rua. E eu agora estava ali, num misto de medo e coragem, de vontade e desejo, em frente aquele prédio.
Desci do carro. Dei alguns passos adiante. Parei por um breve instante. Olhei ao redor. Ainda tinha todo aquele cenário, reflexo constante em minhas pupilas, lembrança da ultima vez em que estive ali, numa situação um tanto quanto diferente. Ventava, uma brisa que vinha de encontro ao meu rosto, e, brincava com os meus cabelos, exatamente como ela gostava de fazer com os dedos. Sorri. Passei a mão pelos cabelos e inspirei um pouco daquele vento. Precisava respirar. O tempo todo eu precisava respirar. Não sei em que momento, eu olhei para trás. Mas, eu estava ali, diante aquele prédio. Não tinha mais senões. Não podia mais recuar. Precisava ser assim. Tinha de ser assim.
Dei mais alguns passos. Em comunicação com o porteiro, me anunciei. Ele me olhou, um pouco descrente, um pouco curioso. Era como se ele pudesse ler através dos meus olhos. Ou talvez, eu estivesse tão nervoso que deixava transparecer aquela situação um ar tragicômico. Eu não sei, mas alguns instantes depois de eu ter me anunciado, ele retornou a mim e disse: "A doutora já vai descer." Foi o suficiente. O suficiente para que eu me sentisse um adolescente. As minhas mãos tremiam e transpiravam frio. Incontáveis vezes as levei aos cabelos, num movimento rápido e repetido. Andava de um lado e de outro, sem sequer sair do mesmo lugar. Eu estava ali e o meu futuro estaria sendo decidido exatamente nas palavras que sairiam dos meus lábios. Era preciso saber o que dizer. Era preciso empregar corretamente. A mais difícil prova da minha vida.
Não demorou muito que ela viesse ao meu encontro. Podia sentir o seu perfume no ar, ao longe, antes mesmo que ela se aproximasse verdadeiramente de mim. Sentia os olhos curiosos do porteiro, um mero expectador daquele momento. Se ele soubesse que era exatamente aquele o momento mais importante da minha vida, se atentaria muito mais do que pela simples curiosidade. Mas, ela enfim veio ate mim, e, na sua cordialidade de sempre me cumprimentou com a saudação habitual.
- Oi!
- Oi!
Um silencio. Como eu temia aquele silencio! Como eu os detestava! E eu sei que ela também. Geralmente, prolongados períodos de silencio terminavam mal. Eu não podia deixar que tudo seguisse o mesmo desfecho. Aquilo tudo era muito importante para mim e eu não estava disposto a perder por causa de alguma palavra que deixou de ser dita.
- Desculpe por ter vindo assim sem avisar. - rompi o silencio.
- Não se desculpe. Eu mesmo lhe disse que poderia fazer isso e que não precisaria me avisar. - interveio ela ainda distante.
- Eu sei, por isso mesmo, senti-me um pouco mais a vontade para assim fazer.
Droga! Não estava saindo nada bem. Estávamos tendo o que ela mais detestava. Uma conversa formal. Eu não podia deixar que as coisas seguissem para esse lado. Era preciso se conscientizar que eu não estava numa reunião de negócios. Estava diante da mulher que eu amo. Eu sabia disso, mas era preciso fazer com que ela também soubesse.
- Eu vim, porque acho, sinceramente, que precisamos conversar. E isso tinha que ser pessoalmente.
- Também acho.
- Então, podemos?
- Claro. Como você quiser.
Em outras situações eu teria me sentido incomodado com este "como você quiser". Mas, agora era diferente.
- Deseja ir a algum lugar para que possamos conversar mais a vontade?
- Talvez. Mas, deixo a seu critério.
- Tudo bem. Acho que sei onde podemos ir.
Saímos do prédio em direção ao carro. Foi tudo tão estranho. Estávamos lado a lado como muitas vezes desejamos que estivéssemos e eu nem sabia o que fazer. Parecíamos dois estranhos. E eu não sabia o que fazer. Eu queria mesmo segurar a mão dela e fazer este mesmo trajeto de mãos dadas, sentindo o calor de suas mãos, ao mesmo tempo em que poderia sentir todo o carinho que só ela sabe me dar. Mas, todo o calor que eu sentia naquele momento era dos poucos raios de sol que rompiam as nuvens naquela tarde. Tarde nublada. Assim como eu estava. Um pouco nublado. A espera que alguns raios de sol viessem romper as minhas nuvens e me dissessem que direção seguir.
Quando entrei no carro, eu não tinha a mínima idéia para onde levá-la. Pensei em levá-la ao shopping, mas achei que o barulho, o burburinho das pessoas em pleno domingo não seriam muito convidativos e apropriados para aquela conversa. E durante o trajeto que fizemos ate o carro, eu vinha pensando onde eu poderia levá-la.
Estávamos no carro, quando fechamos as portas e eu sem a mínima idéia de onde ir agora, liguei instintivamente o som. Com toda aquela situação, eu me esqueci que tinha deixado um CD dentro do som, que começou a tocar algo que nos era muito familiar, a nossa musica.
- Desculpe. - disse, rapidamente abaixando o volume do som.
- Tudo bem.
- Não creio que seja o momento.
- Talvez.
Mais um silencio. Mas, aquele meu "erro" não foi de todo um erro. Parece que aquela musica me fez clarear as idéias, e, me fez ter a certeza de onde eu poderia ir naquele momento. Na verdade, eu só poderia ir mesmo aquele lugar. Não haveria nenhum outro mais apropriado para ir.
- Vamos?
- Sim.
- Tudo bem com você? - pergunta idiota, mas que eu fiz no intuito de evitar mais um silencio.
- Mais ou menos. E com você?
- Indo.
- E sua saúde?
- Estou bem, estou fazendo tudo o que me pedem. Sigo conforme me orientam.
- Tem sentido dores?
Ah, se ela imaginasse as dores que eu tenho sentido! Dores muito mais fortes dos que eu sentia antes. Dores insuportáveis. Dores da ausência dela. Dores da saudade. Dores da absurda falta que ela estava me fazendo.
- Não mais como antes.
- Isso é bom.
- Sim. Isso é bom.
- Rezei para que tudo ficasse bem com você.
- Obrigado.
Dirigia. Seguia em direção a um lugar onde pudéssemos conversar sem que fossemos interrompidos. Era preciso. Eu não fazia idéia de como ia ser esta conversa, de como eu abordaria o assunto. Bem como eu não tinha noção do tempo que isso delongaria. A única coisa que eu tinha certeza é de que só existia aquele lugar, aquele lugar onde poderíamos conversar naquela tarde de domingo.
- Para onde estamos indo?
- A um lugar tranqüilo onde possamos conversar sem sermos interrompidos. Esta conversa é muito importante e acho que não poderíamos te-la no shopping, por exemplo.
- É, creio que não.
Parei o carro. Ela olhou o lugar, e, obviamente, o reconheceu. O mesmo lugar em que tantas vezes ela se refugiou em tardes como aquela, em vários domingos. Um parque, um lago. Exatamente ali. Os três elementos reunidos. E eu a espera que o quarto viesse de encontro a nos dois. O fogo. O fogo da paixão, do amor, que jamais abandonou o meu coração.
- Aqui?
- Sim.
- Por quê?
- Porque acho que este lugar nos trará a tranqüilidade que nos é necessária para essa conversa. Mas, se quiser, podemos ir a outro lugar. Como você quiser.
- Não. Esta bom aqui.
Descemos do carro. Fomos em direção ao lago. E durante o caminho, eu a pude observar ainda melhor.
Seus cabelos soltos se deixavam agraciar pelo vento que nos acometia aquela tarde. Movimentos sutis que me eram encantadoramente sedutores. Por vezes, ela também levava a mão aos cabelos, tentando, talvez, conte-los. E tudo isso, feito tão inconscientemente, era tão gracioso, tão gentil, tão delicado. E foi em uma dessas vezes, em que ela passou a mão por eles, revelando assim o seu rosto, que eu pude avaliar melhor a pessoa que estava ali, diante de mim.
Ela estava ainda mais linda do que nunca. Ainda mais linda do que todas as vezes que pude vê-la. A dor da situação, o sofrimento eram evidentes, mas insuficientes para corromper ou macular a sua beleza. Ela estava ainda mais bela, ainda mais madura. Suas expressões eram firmes, discretas, seguras. O seu olhar, ainda que um pouco distante, era penetrante, revelador. Revelador daquilo que ela tinha se tornado. Uma mulher. Uma mulher plena, em todos os sentidos. Uma mulher segura daquilo que quer. A minha mulher.
A vontade que eu tinha era de segura-la pelo braço, fazendo com ela interrompesse aquela caminhada, e, a colocasse em meu peito, para que eu pudesse abraçá-la e fazê-la acreditar que ninguém mais sabe o que temos, só nos dois. Mas, eu não sabia direito o que fazer. Estava entre a vontade e a razão. A vontade me dizia constantemente que a devia tomar em meus braços e que não a deixasse mais ir embora. A razão me atormentava com uma conversa, uma derradeira conversa que tínhamos de ter. Entre a vontade e a razão, fiquei eu onde eu estava. Ainda mais apaixonado. Completamente entregue aquela mulher. E qualquer que fosse o desfecho daquela conversa, eu tinha a absoluta certeza de que isso jamais mudaria.
- Vamos nos sentar? - disse
- Claro, vamos sim.
Sentamos a beira daquele lago. A tranqüilidade, o vento sobre os cabelos, os três elementos a espera do quarto, tudo estava ali. E eu ainda não sabia o que fazer, não sabia sequer como começar. Fiquei alguns minutos assim, calado, olhando para o lago, tentando buscar naquelas águas, as palavras que deveriam sair de meus lábios. Mas, inútil. Tudo o que aquele lago conseguia me inspirar era: "eu te amo. Não sei ficar sem você. Eu nunca queria ter deixado você ir embora. Eu preciso tanto de você...".
- Eu não sei ao certo como começar esta conversa. - disse eu, enfim, após um longo silencio.
- Eu também não sei. Esperei tanto por isso, que agora nem sei mais.
- Não sabe mais?
- Não sei mais...
- Talvez, seja a nossa ultima conversa.
- Talvez. Eu não tenho as respostas.
- Eu estou aqui para te dar todas.
- Então, me de as suas respostas. Se esta for realmente a nossa ultima conversa, acho que deve falar tudo o que quiser falar.
O tom que ela usou para proferir essas palavras me fez tremer. Parecia algo derradeiro. Eu tinha chegado a um ponto da encruzilhada que não tinha mais como voltar. Era a ultima vez. Senti isso pelo tom das palavras delas. Era a ultima vez que eu estava diante dela.
- Eu não queria que as coisas acontecessem como aconteceu. - comecei.
- Acho que ninguém queria.
- Eu não queria que nada interferisse no que tínhamos de mais concreto, de mais sólido, de mais certo. O nosso amor. Era dele que eu tirava a coragem para romper os problemas. A única certeza que eu tinha na minha vida.
- Eu sei o que quer dizer. Eu posso dizer o mesmo. - disse ela em um tom suspiroso.
- Talvez, você esteja certa. Talvez, esta seja mesmo a nossa ultima conversa, o nosso ultimo momento. Talvez, quando eu a deixar na porta de sua casa, seja pela ultima vez.
- Talvez.
- Então, que seja pela ultima vez. Pela ultima vez que eu vou fazer exatamente o que eu deveria ter feito há muito tempo atrás.
- Como assim?
- Eu te amo. Eu te amo de verdade. Eu te amo como jamais amei alguém em toda a minha vida. Cometi inúmeros erros, eu assumo todos. Mas, eu nunca brinquei com isso. Eu jamais faria isso com a mulher que eu amo. A mulher mais incrível que eu já conheci. E se essa for a ultima vez que te vejo, a ultima vez que falo com você, que você tenha ciência disso, desse meu amor. Eu te amo, eu te amo tanto, te amo tanto. E eu estou aqui agora. Estou aqui para que tu me diga que caminho devo seguir. Porque eu não aprendi a viver sem você. E preciso que você me diga que caminho devo seguir a partir de agora.
- Talvez...
- Talvez, seja tarde. - interrompi - Tarde demais para falar essas coisas, para tomar certas atitudes. Mas, eu preciso...
Então, ela colocou a mão sobre os meus lábios. Calei-me, ao mesmo tempo em que fechei os meus olhos. O contato com a pele tão delicada de sua mão me fez perder completamente os sentidos. Não tinha mais idéia de quem eu era, de onde eu estava. O quarto elemento me consumia inteiramente ao toque da mulher que eu amava.
- Eu não preciso de mais nada. Eu tenho tudo o que eu sempre quis. Um lago, um domingo, o amor do homem que eu amo. E você esta aqui comigo, agora. E eu posso enfim dizer tudo o que eu sinto, olhando nos teus olhos. Isso era tudo o que eu precisava. Estar com você. Mas, se você achar que deve seguir um caminho diferente do meu, então...
Foi a minha vez de calar a ela. Mas, não foi com a mão, nem tão pouco com os dedos. Foi com a minha boca, que a impediu de terminar a frase. Na verdade, as palavras agora eram desnecessárias. Um beijo. Um beijo longo e demorado. Um beijo desejado. Um beijo necessário. Um beijo capaz de dizer mais do que mil palavras.
Novamente unidos, exatamente como deveria estar escrito em alguma daquelas paginas daquele exemplar instintivamente devorado pela minha boa e querida amiga, percorro pelas ruas daquela cidade, de mãos dadas à mulher de toda a minha vida, enquanto, eu ainda consigo sentir vindo de algum lugar, o aroma de mais uma xícara de café.





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